João Lemos
Esteves (www.expresso.pt)
3:42 Sexta feira, 30 de novembro de 2012
"Oh
minha Senhora, já fez essa pergunta quatro vezes!". MAldita a hora em que
vimconversar com a Judite! Oh Carlos, tira-me já daqui! Não...eu gosto mais do
Relvas...(pensa Passos Coelho).
1."Oh
minha senhora, já me fez essa pergunta quatro vezes!". Foi a frase que
marcou a entrevista de Pedro Passos Coelho à TVI - foi curioso notar que o
Primeiro-Ministro começou a abordar Judite de Sousa como "senhora
doutora" e acabou por se exasperar com a jornalista no final da
entrevista. Significa isto que Judite de Sousa cumpriu com talento e
profissionalismo a sua missão: interrogar, com objetividade e clarividência, o
(formalmente) chefe de Governo. Ai, coitadinho do Passos! Já teve de fugir à
pergunta três vezes e a diabólica da Judite ainda insistiu mais uma vez...ai,
que pena que nós temos de Passos Coelho: é que fugir às perguntas dá mesmo
muito trabalho! Por amor de Deus: se nós portugueses protestássemos cada
vez que Passos Coelho nos dificulta - ou, em português claro, percetível para
todos, sem margens para dúvidas, nos "lixa" - a vida, então
andaríamos sempre irritados com o nosso Excelentíssimo senhor Primeiro-Ministro!
2. Dito
isto, passemos à análise da entrevista. Para além da "minha senhora, já
fez essa pergunta quatro vezes" , dita em tom irritado por Passos Coelho,
do debate não ficou absolutamente nada! Passos Coelho esteve basicamente a
falar, a falar, a falar - sem dizer quase nada de original ou de novo.
Basicamente, Passos Coelho esteve a exercitar a sua especialidade que é o
discurso vazio, inconsequente e negro para os portugueses - no fundo, a arte do
"encher chouriços", como diz o Senhor Manuel do café ali do fundo
da rua, que (tenho a certeza!) sabe mais e tem mais consciência da crise em
que vivemos do que Pedro Passos Coelho.
2.1. Não
obstante, da entrevista à TVI, podemos retirar as seguintes conclusões, em
jeito mais de confirmação do que propriamente de novidade:
Passos
Coelho não vai fazer nenhum esforço para dialogar com o Partido Socialista. Daí
que a palavra "refundação" tenha saído, muito subtilmente, muito
ligeiramente, do seu léxico político. Note-se que Passos Coelho pretendia reduzir a
despesa até Fevereiro - data-limite em que tem de apresentar medidas à troika -
convidando, em termos muito abstratos, o PS a colaborar com o Governo. Na
entrevista, Passos Coelho já afirmou algo diverso: as medidas que serão
apresentadas em Fevereiro serão meramente conjunturais, servirão para resolver
problemas do imediato. Esta mudança de discurso denota duas coisas: o
Governo não se quer comprometer com nada definitivo com os portugueses para já,
esperando que o clima social registe uma acalmia significativa; por outro lado,
Passos Coelho vai avançar sozinho sem o PS, sem dar, ao mesmo tempo, azo à
política de vitimização de António José Seguro.
Quanto ao
Orçamento de Estado para o próximo ano, Passos Coelho não se comprometeu com
o êxito da sua execução (aliás, se há expressão que pode caraterizar a
entrevista de quarta-feira é a de entrevista de descomprometimento).
Confrontado com as previsões das instâncias internacionais que desmentem as do
Governo, basicamente, Passos Coelho, muito incomodado, começou a preparar o
discurso de justificação do falhanço do Governo. Tratou-se, acima de tudo,
de um tubo de ensaio justificativo de novo insucesso orçamental, a preparar já
terreno para aquele que será o discurso recorrente do Governo em 2013;
Por outro
lado, Passos Coelho disse mais do que aquilo que queria dizer. O
Primeiro-Ministro foi para a entrevista com Judite de Sousa e José Alberto
Carvalho preparado para não sair dos limites estritos de um guião preparado
pelos seus assessores que era simplesmente isto: o Governo está a fazer tudo
aquilo que pode. Nem mais, nem menos - e tinha que preencher uma hora só com
esta mensagem. Ora, não se percebe por que razão alguém tão preocupado com a
sua imagem, com a sua comunicação, como é Passos Coelho, tenha proposto à
TVI realizar esta entrevista: é que uma mensagem tão curta como era a que
Passos Coelho queria transmitir aos portugueses não justificava uma entrevista.
Porém, quando Passos Coelho começou a ficar incomodado, começou a trair-se a si
próprio: pense-se no exemplo dos impostos. Foi uma verdadeira gaffe:
Passos Coelho afirmou que o atual nível da carga fiscal é insustentável, mas é
para manter por uns bons anos. Com isto, e sem ter consciência, Passos Coelho
qualificou a sua política: insustentável. Algo insustentável, tanto quanto sei,
é algo que não se pode sustentar: se não se pode sustentar, como poderá ter
êxito? Mais: Passos Coelho já não tem margem nenhuma para aumentar impostos
- fechou completamente a porta à subida de impostos. Esta é a única
semi-novidade do discurso: Passos mantém impostos - mas não os vai subir. Ele
não queria dizer,mas disse.
Por último, temos
a questão da saúde da coligação PSD/CDS. A resposta de Passos Coelho foi
verdadeiramente reveladora (e assustadora!). Afirmou que a coligação resistirá
por obrigação e por convicção. Tudo isto é "politiquês" -
traduzindo para português corrente significa que sim, a coligação está por um
fio. Dedicaremos um texto autónomo sobre esta matéria, dada a sua relevância
para o futuro político português.
Nota Passos
Coelho: 8 valores
Judite
Sousa: 13 valores
José Alberto Carvalho: 12 valores

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